Cores e Contrastes – 002

Sexta caiu o mundo na Grande São Paulo. Deslizamentos, alagamentos, quedas de árvores. Gente que morreu soterrada. Enterrada viva. Hoje foi o primeiro dia útil depois da tragédia. Eu fui pra Franco da Rocha e Francisco Morato. Em Morato, o frentista de bigode grisalho apontou o caminho:

_Rua Iran.

O dedo dele indicava pro alto. De longe, deu pra ver mais ou menos onde era. Longe. E alto. Nelson Gonçalves cantou no palco da minha cabeça:

“Vai barracão
Pendurado no morro
E pedindo socorro
A cidade a seus pés
Vai barracão
Tua voz eu escuto
Não te esqueço um minuto
Porque sei que tu és

Barracão de zinco
Tradição do meu país
Barracão de zinco
Pobre é tão infeliz”

Subimos o morro de carro. Os ônibus azuis pareciam salsichas fazendo as curvas. Tinha mais lombadas que Guaranésia.

Na rua Iran, uma ruidosa retroescavadeira rapava a terra que ainda sujava o asfalto. Um homem de camisa vermelha olhava sozinho o buraco onde cabia uma casa. Ali tinha uma casa semana passada. Mas a terra do barranco gigante escorregou e engoliu tudo. O chão tremeu. Pai, mãe e filho foram enterrados vivos. O homem de camisa vermelha era colega de trabalho do pai que morreu. Conviveram durante 21 anos. Domingo passado eles passaram o dia juntos.

_Não sei se foi o destino ou se foi um acidente — refletiu o homem diante do gravador.

“Destino e acidente não seriam a mesma coisa?” — perguntei pra mim mesmo.

Guardei a filosofia no bolso, mirei para o alto e vi dezenas de barracões pendurados no morro e torci para que nem o destino nem um acidente os alcançasse.

Abaixo de um dessas casas suspensas estava uma rodinha de meninos, tradição do meu país. Uns sete ou oito. Alguns de bicicleta. Todos de pé. De pé no chão. Com a cidade a seus pés. Um deles viu nossa viatura e claro, ficou curioso:

_Vocês são da “rádia”?

Imaginei que pediriam socorro, que falariam sobre os vizinhos mortos, sobre os desalojados, sobre o medo da chuva e do barracão de zinco.

_Manda um abraço pra minha mãe! Ela chama Aparecida.

E riram tão alto que a terra quase tremeu outra vez.

Cores e Contrastes – 001

No cardápio do dia, no buteco da Líbero Badaró, tinha feijoada normal, feijoada light e uma terceira coisa impossível de comer sozinho que eu nem guardei o que era.

Pedi a light.

Além da cumbuca com feijoada, veio uma travessa com arroz, couve, farofa amarela e uma bisteca generosa. E dois potinhos de porcelana branca. Um com vinagrete (96% cebola, 3% pimentão, 1% tomate). Outro com um molho marrom de pimenta que parecia caldo de feijão.

Almocei editando a coletiva do Haddad no celular, como de costume. O outro celular ficou em cima da mesa. Fiquei de olho. O lugar não era tão seguro. Eis que desaparata do meu lado, como mágica, um morador de rua com um saco nas costas. Pediu o que sobrou da comida e antes que eu respondesse avançou sobre a mesa.

Pegou o molho de pimenta que parecia caldo de feijão, ignorou meu aviso e bebeu como se fosse suco de uva. Depois, enfiou o osso da bisteca na boca. E com três colheradas, matou o vinagrete de cebola.

E sumiu.

Tudo durou 30 segundos.

Passado o espanto inicial, lembrei daquele poema do Bandeira:

O Bicho

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.